quinta-feira, 29 de maio de 2014

Entrevista: Bruno Paes Manso

Em entrevista coletiva a estudantes de comunicação do 7º Curso Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter – projeto da Oboré –, na Câmara Municipal, o jornalista e blogueiro do portal do jornal O Estado de S.Paulo, Bruno Paes Manso, comentou sobre a cobertura de segurança pública da mídia brasileira.

Segundo Bruno Manso, alguns programas da mídia brasileira que fazem cobertura policial, como o Cidade Alerta, apresentado por Marcelo Resende; e Brasil Urgente, por José Luiz Datena; não são jornalísticos, apenas “entretêm” o público. “Acho que esses programas são programas de entretenimento e não são programas de jornalismo”, afirma.

Para Manso, alguns programas fazem entretenimento,
não jornalismo
Manso compara os programas às execuções de penas de mortes realizadas em praça pública na Idade Média, as quais eram assistidas por toda a população quase como um “entretenimento” e utilizadas para se fazer justiça e exemplar o povo. “O Datena e o Marcelo Resende fazêm um pouco isso. O Brasil é um país sem justiça, onde as pessoas sentem falta de punição, elas querem um bode expiatório, querem se sentir seguras, elas precisam disso. E eles fazem o papel do palhaço, que é o carrasco que vai enforcar as pessoas. De certa forma, simbolizam isso. Assim como outros programas sensacionalistas que lidam com essa questão a partir do medo que as pessoas sentem e a partir do papel de carrasco que eles fazem pra lidar com isso e representar o justiceiro da sociedade. Isso é entretenimento para mim, isso não é jornalismo”, justifica.

Para Bruno Paes Manso, os jornalistas que cobrem segurança pública devem saber compreender o discurso das fontes e olhar o fato não de forma isolada, mas contextualizá-lo para tentar entendê-lo. “Você [precisa] se colocar no lugar da pessoa que está te contando e tentar entender o que ela está te falando, o que está sentindo, as razões dela”, diz. “Claro que eu não vou concordar com o cara que matou trinta pessoas, mas é necessário entender a racionalidade e o discurso”, completa.

A boa cobertura jornalística de segurança pública, de acordo com Bruno Manso, é aquela que busca, após ter o contato com as fontes, se distanciar do fato e olhar por “cima” para enxergar o contexto e tentar entender todos os fatores. “Você se afasta e tenta entender os conflitos que estão em jogo. Você tenta descrever o fato de uma forma mais objetiva para falar sobre os conflitos. Por que esses conflitos estão acontecendo? Por que ele está matando? Por que a justiça não está agindo? Você vê de cima a coisa”, explica.

No portal do Estadão, Bruno Manso publica no blog “SP no Divã” textos sobre segurança pública. De acordo com Manso, o objetivo do blog é fazer as pessoas enxergarem e pensar a respeito dos problemas da cidade para tentar resolvê-los. “Quando você procura um psiquiatra ou analista, você está com problemas, quer pensar sobre sua vida. Então, você senta lá e quer começar uma investigação sobre os seus ‘podres’”. Desta forma, “é possível encará-los de uma maneira diferente”, comenta. 

 *Publicado também na Casa dos Foca

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Entrevista: Eduardo Belo

Após enfrentar o caótico trânsito da cidade de São Paulo, agravado pelos protestos nas principais vias, Eduardo Belo – colaborador do Valor Econômico e da editoria de economia da Revista Brasileiros – conversou nesta quarta-feira, 14 de maio, com alunos do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi (UAM) sobre o tema Grande Reportagem. Belo falou também a respeito da polêmica das biografias não-autorizadas e a relação entre jornal impresso e internet.

Segundo o jornalista, uma grande reportagem não necessariamente deve abordar um assunto que ainda não foi tratado pela imprensa, porém é preciso que esta tenha um ângulo diferente das demais. “O que vai fazer a diferença é a abordagem e o tratamento original”, afirma Eduardo Belo.

Belo conversou com estudantes da UAM
sobre grande reportagem
Além de um recorte preciso do assunto abordado, é necessário fazer pesquisas exaustivas relacionadas à temática. Essa ação de pesquisar, de acordo com Belo, aprofunda o conhecimento do repórter e dá embasamento para as perguntas feitas às fontes. Ainda, é necessário ler tudo o que já foi publicado a respeito do tema, porque isso ajudará, não somente a publicar algo original, mas, “principalmente, a não fazer uma publicação errada”, diz Belo.

Desta forma, o repórter tem que sempre se preocupar em apurar se os dados coletados são, de fato, verdadeiros. Contudo, não basta apenas preocupar-se com os números e estatísticas, mas também com os acontecimentos. “É necessário que o jornalista não só se preocupe com a exatidão dos números e dos dados, mas também com a dos fatos”, aconselha, pois o jornalista deve sempre buscar fazer a versão mais aproximada da verdade.

Por ser um jornalista especializado na área de economia, Belo conta que uma das dificuldades dos jornalistas especializados é a dependência de informação das mesmas fontes. Geralmente, é prática comum nas redações ter duas ou três fontes para falar sobre determinados assuntos, porém isso torna o jornalista dependente dessa informação, que pode ser errônea.

Biografias
A polêmica gerada pelas biografias não-autorizadas, no começo do ano, também pautou a conversa com os estudantes de jornalismo da UAM. Eduardo Belo, em parceria com a jornalista Ana Claudia Landi, escreveu Apenas uma Garotinha: A História de Cássia Eller e, segundo ele, encontrou algumas dificuldades para fazer a obra sobre a cantora. Para Belo, a dependência da autorização do biografado é censura. “O artista vive do que se não da sua imagem?”, justifica. Contudo, o biógrafo deve ter a consciência de que nem tudo tem a necessidade de ser publicado, pois muitos fatos a respeito do biografado podem apenas estereotipar a imagem deste e não acrescentar informações relevantes. “Acredito que cabe um bom senso”, orienta.

Jornal impresso x Internet
Os jornais impresso, atualmente, publicam muitas informações que o leitor já obteve acessando a internet. Sendo assim, algumas matérias tornam-se redundantes. “Essas coisas que afetam o dia a dia do cidadão, e que podem ser obtidas em um clique, deixou de ser prioridade do jornal impresso”, explica Belo. Para ele, “o jornalismo ainda não encontrou um modelo econômico para conviver com internet”.
Uma das alternativas para diferenciar o jornal da internet e aumentar as vendas do primeiro é a aposta na produção de grandes reportagens, pois, apesar da relutância dos empresários do ramo jornalístico por causa dos custos, a grande reportagem pode ainda despertar o interesse dos leitores. “As pessoas talvez não sintam falta [da grande reportagem], mas se você começar a oferecer, elas vão se interessar”, diz o jornalista.

Conselho
Ao final da conversa com os estudantes, Eduardo Belo ressaltou a importância de o repórter não confiar na primeira informação que chega e recusar “coisas fáceis”, não apuradas corretamente. Sobre isso, Belo deixou um conselho aos jornalistas em formação: “Façam-se respeitar como jornalistas”.